Sugestões Para Atravessar Agosto – Caio Fernando Abreu
Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.
Caio Fernando Abreu (6/8/1995 – para o jornal o estado de são paulo)
O Bebê de Tarlatana Rosa -João do Rio
— Oh! uma história de máscaras! quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto… Francamente. Toda a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura… E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando a nossa curiosidade.
Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante. Heitor, fumando um gianaclis autêntico, parecia absorto.
— É uma aventura alegre? indagou Maria. — Conforme os temperamentos. — Suja?
— Pavorosa ao menos — De dia? — Não. Pela madrugada. — Mas, homem de Deus, conta! suplicava Anatólio. Olha que está adoecendo a Maria. Heitor puxou um largo trago à cigarreta. — Não há quem não saia no Carnaval disposto ao excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias O desejo, quase doentio é como incutido, infiltrado pelo ambiente. Tudo respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses quatro dias paranóicos, de pulos, de guinchos, de confianças ilimitadas, tudo é possível. Não há quem se contente com uma… — Nem com um, atalhou Anatólio. — Os sorrisos são ofertas, os olhos suplicam, as gargalhadas passam como ao arrepios de urtiga pelo ar. É possível que muita gente consiga ser indiferente. Eu sinto tudo isso. E saindo, à noite, para a pornéia da cidade, saio como na Fenícia saíam os navegadores para a procissão da primavera, ou os alexandrinos para a noite de Afrodite. — Muito bonito! ciciou Maria de Flor. — Está claro que este ano organizei uma partida com quatro ou cinco atrizes e quatro ou cinco companheiros. Não me sentia com coragem de ficar só como um trapo no vagalhão de volúpia e de prazer da cidade. O grupo era o meu salva-vidas. No primeiro dia, no sábado, andamos de automóvel a percorrer os bailes. Íamos indistintamente beber champanhe aos clubes de jogo que anunciavam bailes e aos maxixes mais ordinários. Era divertidíssimo e ao quinto clube estávamos de todo excitados. Foi quando lembrei uma visita ao baile público do Recreio. — “ Nossa Senhora! disse a primeira estrela de revistas, que ia conosco. Mas é horrível! Gente ordinária, marinheiros à paisana, fúfias dos pedaços mais esconsos da rua de S. Jorge, um cheiro atroz, rolos constantes…” — Que tem isso? Não vamos juntos?Com efeito. Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia o que temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se bem. Naturalmente fomos e era uma desolação com pretas beiçudas e desdentadas esparrimando belbutinas fedorentas pelo estrado da banda militar, todo o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas diabólicas, de íncubos em frascos de álcool, que tem as perdidas de certas ruas, moças, mas com os traços como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão e de papel de arroz. Não havia nada de novo. Apenas, como o grupo parara diante dos dançarinos, eu senti que se roçava em mim, gordinho e apetecível, um bebê de tarlatana rosa. Olhei-lhe as pernas de meia curta. Bonitas. Verifiquei os braços, o caído das espáduas, a curva do seio. Bem agradável. Quanto ao rosto era um rostinho atrevido, com dois olhos perversos e uma boca polpuda como se ofertando. Só postiço trazia o nariz, um nariz tão bem feito, tão acertado, que foi preciso observar para verifica-lo falso. Não tive dúvida. Passei a mão e preguei-lhe um beliscão. O bebê caiu mais e disse num suspiro — ai que dói! Estão vocês a ver que eu fiquei imediatamente disposto a fugir do grupo. Mas comigo iam cinco ou seis damas elegantes capazes de se debochar mas de não perdoar os excessos alheios, e era sem linha correr assim, abandonando-as, atrás de uma frequentadora dos bailes do Recreio. Voltamos para os automóveis e fomos cear no clube mais chique e mais secante da cidade.— E o bebê? — O bebê ficou. Mas no domingo, em plena avenida, indo eu ao 1ado do chauffeur, no borborinho colossal, senti um beliscão na perna e uma voz rouca dizer : “ para pagar o de ontem”. Olhei. Era o bebê rosa, sorrindo, com o nariz postiço, aquele nariz tão bem feito. Ainda tive tempo de indagar: onde vais hoje?— À toda parte! respondeu, perdendo-se num grupo tumultuoso. — Estava perseguindo-te! comentou Maria de Flor. — Talvez fosse um homem… soprou desconfiado o amável Anatólio. — Não interrompam o Heitor! fez o barão, estendendo a mão. Heitor acendeu outro gianaclis, ponta de ouro, sorriu, continuou: — Não o vi mais nessa noite, e segunda-feira não o vi também. Na terça desliguei-me do grupo e caí no mar alto da depravação, só, com uma roupa leve por cima da pele todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade inteira estava assim. É o momento em que por trás das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes, é o instante em que as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e todos nós a achamos ínútil, a honra uma caceteação, o bom senso uma fadiga. Nesse momento tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento há um riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente. Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil. Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no carnaval. — A quem o dizes !… suspirou Maria de Flor. — Mas eu estava sem sorte, com a guigne, com o caiporismo dos defuntos índios. Era aproximar-me, era ver fugir a presa projetada. Depois de uma dessas caçadas pelas avenidas e pelas praças, embarafustei pelo S. Pedro, meti-me nas danças, rocei-me àquela gente em geral pouco limpa, insisti aqui, ali. Nada! — É quando se fica mais nervoso! — Exatamente. Fiquei nervoso até o fim do baile, vi sair toda a gente, e saí mais desesperado. Eram três horas da manhã. O movimento das ruas abrandara. Os outros bailes já tinham acabado. As praças, horas antes incendiadas pelos projetores elétricos e as cambiantes enfurnadas dos fogos de bengala, caíam em sombras — sombras cúmplices da madrugada urbana. E só, indicando a folia, a excitação da cidade, um ou outro carro arriado levando máscaras aos beijos ou alguma fantasia tilintando guizos pelas calçadas fofas de “confetti”. Oh! a impressão enervante dessas figuras irreais na semi-sombra das horas mortas, roçando as calçadas, tilintando aqui, ali um som perdido de guizo! Parece qualquer coisa de impalpável, de vago, de enorme, emergindo da treva aos pedaços… E os dominós embuçados, as dançarinas amarfanhadas, a coleção indecisa dos máscaras de último instante arrastando-se extenuados! Dei para andar pelo largo do Rocio e ia caminhando para os lados da secretaria do interior, quando vi, parado, o bebê de tarlatana rosa. Era ele! Senti palpitar-me o coração. Parei. — “ Os bons amigos sempre se encontram” disse. O bebê sorriu sem dizer palavra. Estás esperando alguém? Fez um gesto com a cabeça que não. Enlacei-o. — Vens comigo? — Onde? indagou a sua voz áspera e rouca. — Onde quiseres! Peguei-lhe nas mãos. Estavam úmidas mas eram bem tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela recuou. Os meus lábios tocaram apenas a ponta fria do seu nariz. Fiquei louco. — Por pouco… — Não era preciso mais no Carnaval, tanto mais quanto ela dizia com a sua voz arfante e lúbrica: —- “ Aqui não!” Passei-lhe o braço pela cintura e fomos andando sem dar palavra. Ela apoiava-se em mim, mas era quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir todo o bestial desejo que os meus diziam. Nessas fases do amor não se conversa. Não trocamos uma frase. Eu sentia a ritmia desordenada do meu coração e o sangue em desespero. Que mulher! Que vibração! Tínhamos voltado o jardim. Diante da entrada que fica fronteira à rua Leopoldina, ela parou, hesitou.
Depois arrastou-me, atravessou a praça, metemo-nos pela rua, escura e sem luz. Ao fundo, o edifício das Belas Artes era desolador e lúgubre. Apertei-a mais. Ela aconchegou-se mais. Como os seus olhos brilhavam! Atravessamos a rua Luiz de Camões, ficamos bem em baixo das sombras espessas do Conservatório de Música.
Era enorme o silêncio e o ambiente tinha uma cor vagamente russa com a treva espancada um pouco pela luz dos combustores distantes. O meu bebê gordinho e rosa parecia um esquecimento do vício naquela austeridade da noite. —- Então, vamos? indaguei. —Para onde? — Para a tua casa. —— Ah! não, em casa não podes… Então por aí. — Entrar, sair, despir-me. Não sou disso ! — Que queres tu, filha? É impossível ficar aqui na rua. Daqui a minutos passa a guarda. — Que tem? — Não é possível que nos julguem aqui para bom fim, na madrugada de cinzas.
Depois, às quatro tens que tirar a máscara. -— Que máscara? — O nariz. -— Ah! sim! E sem mais dizer puxou-me. Abracei-a. Beijei-lhe os braços, beijei-lhe o colo, beijei-lhe o pescoço. Gulosamente a sua boca se oferecia. Em torno de nós o mundo era qualquer coisa de opaco e de indeciso. Sorvi-lhe o lábio. Mas o meu nariz sentiu o contato do nariz postiço dela, um nariz com cheiro a resina, um nariz que fazia mal. — Tira o nariz! — Ela segredou: Não! não! custa tanto a colocar! Procurei não tocar no nariz tão frio naquela carne de chama. O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia um mal estar curioso, um estado de inibição esquisito. — Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois não te disfarça nada. —- Disfarça sim! — Não! Procurei-lhe nos cabelos o cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz que não era dela, o nariz de fantasia.
Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão, aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais, e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinadamente —uma caveira com carne… Despeguei-a, recuei num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu tremia de horror, de nojo. O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão com a caveira voltada para mim, num choro que lhe arregaçava o beiço mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos. — Perdoa! Perdoa! Não me batas. A culpa não é minha! Só no Carnaval é que eu posso gozar. Então, aproveito, ouviste? aproveito.
Foste tu que quiseste… Sacudi-a com fúria, pu-la de pé num safanão que a devia ter desarticulado. Uma vontade de cuspir, de lançar apertava-me a glote, e vinha-me o imperioso desejo de esmurrar aquele nariz, de quebrar aqueles dentes, de matar aquele atroz reverso da luxúria… Mas um apito trilou. O guarda estava na esquina e o1hava-nos, reparando naquela cena da semi-treva. Que fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo a mundo que a beijara? Não resisti. Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao largo inconscientemente deitei a correr como um louco para a casa, os queixo batendo, ardendo em febre.Quando parei á porta de casa para tirar a chave, é que reparei que a minha mão direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa…
Heitor de Alencar parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria de Flor mostrava uma contração de horror na face e o doce Anatólio parecia mal. O próprio narrador tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas de suor. Houve um silêncio agoniento. Afinal o barão Belfort ergueu-se, tocou a campainha para que o criado trouxesse refrigerantes, e resumiu: — Uma aventura, meus amigos, uma bela aventura. Quem não tem do carnaval a sua aventura? Esta é pelo menos empolgante. E foi sentar-se ao piano.
Dentro da noite - João do Rio
Então causou sensação?
Tanto mais quanto era inexplicável. Tu amavas a Clotilde, não? Ela coitadita! parecia louca por ti e os pais estavam radiantes de alegria. De repente, súbita transformação. Tu desapareces, a família fecha os salões como se estivesse de luto pesado. Clotilde chora… Evidentemente havia um mistério, uma dessas coisas capazes de fazer os espíritos imaginosos arquitetarem dramas horrendos. Por felicidade, o juízo geral é contra o teu procedimento.
Contra mim?
Podia ser contra a pureza da Clotilde.
Graças aos deuses, porém, é contra ti. Eu mesmo concordaria com o Prates que te chama velhaco, se não viesse encontrar o nosso Rodolfo, agora, às onze da noite, por tamanha intempérie metido num trem de subúrbio com o ar desvairado…
Eu tenho o ar desvairado?
Absolutamente desvairado.
Vê-se?
É claro. Pobre amigo! Então, sofreste muito? Conta lá. Estás pálido, suando apesar da temperatura fria, e com um olhar tão estranho, tão esquisito. Parece que bebeste e que choraste. Conta lá. Nunca pensei encontrar o Rodolfo Queirós, o mais elegante artista desta terra, num trem de subúrbio, às onze de uma noite de temporal. É curioso. Ocultas os pesares nas matas suburbanas? Estás a fazer passeios de vício perigoso?
O trem rasgara a treva num silvo alanhante, e de novo cavalava sobre os trilhos. Um sino enorme ia com ele badalando, e pelas portinholas do vagão viam-se, a marginar a estrada, as luzes das casas ainda abertas, os silvedos
empapados d’água e a chuva lastimável a tecer o seu infindável véu de lágrimas. Percebi então que o sujeito gordo da banqueta próxima - o que falava mais - dizia para o outro:
Mas como tremes, criatura de Deus! Estás doente?
O outro sorriu desanimado.
Não; estou nervoso, estou com a maldita crise.
E como o gordo esperasse:
Oh! meu caro, o Prates tem razão! E teve razão a família de Clotilde e tens razão tu cujo olhar é de assustada piedade. Sou um miserável desvairado, sou um infame desgraçado.
Mas que é isto, Rodolfo?
Que é isto! É o fim, meu bom amigo, é o meu fim. Não há quem não tenha o seu vício, a sua tara, a sua brecha. Eu tenho um vício que é positivamente a loucura. Luto, resisto, grito, debato-me, não quero, não quero, mas o vício vem vindo a rir, toma-me a mão, faz-me inconsciente, apodera-se de mim. Estou com a crise. Lembras-te da Jeanne Dambreuil quando se picava com morfina? Lembras-te do João Guedes quando nos convidava para as fumeries de ópio? Sabiam ambos que acabavam a vida e não podiam resistir. Eu quero resistir e não posso. Estás a conversar com um homem que se sente doido.
Tomas morfina, agora? Foi o desgosto decerto…
O rapaz que tinha o olhar desvairado perscrutou o vagão. Não havia ninguém mais - a não ser eu, e eu dormia profundamente… Ele então aproximou-se do sujeito gordo, numa ânsia de explicações.
Foi de repente, Justino. Nunca pensei! Eu era um homem regular, de bons instintos, com uma família honesta. Ia casar com a Clotilde, ser de bondade a que amava perdidamente. E uma noite estávamos no baile das Praxedes, quando a Clotilde apareceu decotada, com os braços nus. Que braços! Eram delicadíssimos, de uma beleza ingênua e comovedora, meio infantil, meio mulher - a beleza dos braços das Oreadas pintadas por Botticelli, misto de castidade mística e de alegria pagã. Tive um estremecimento. Ciúmes? Não. Era um estado que nunca se apossara de mim: a vontade de tê-los só para os meus olhos, de beijá-los, de acariciá-los, mas principalmente de fazê-los sofrer. Fui ao encontro da pobre rapariga fazendo um enorme esforço, porque o meu desejo era agarrar-lhe os braços, sacudi-los, apertá-los com toda a força, fazer-lhes manchas negras, bem negras, feri-los… Por quê? Não sei, nem eu mesmo sei - uma nevrose! Essa noite passei-a numa agitação incrível. Mas contive-me. Contive-me dias, meses, um longo tempo, com pavor do que poderia acontecer O desejo, porém, ficou, cresceu, brotou, enraizou-se na minha pobre alma. No primeiro instante, a minha vontade era bater-lhe com pesos, brutalmente. Agora a grande vontade era de espetá-los, de enterrar-lhes longos alfinetes, de cosê-los devagarinho, a picadas. E junto de Clotilde, por mais compridas que trouxesse as mangas, eu via esses braços nus como na primeira noite, via a sua forma grácil e suave, sentia a finura da pele e imaginava o súbito estremeção quando pudesse enterrar o primeiro alfinete, escolhia posições, compunha o prazer diante daquele susto de carne que havia de sentir.
Que horror!
Afinal, uma outra vez, encontrei-a na sauterie da viscondessa de Lajes, com um vestido em que as mangas eram de gaze. Os seus braços - oh! que braços, Justino, que braços! - estavam quase nus. Quando Clotilde erguia-os, parecia uma ninfa que fosse se metamorfoseando em anjo. No canto da varanda, entre as roseiras, ela disse-me: “Rodolfo, que olhar o seu. Está zangado?” Não foi possível reter o desejo que me punha a tremer, rangendo os dentes. - “Oh! não! fiz. Estou apenas com vontade de espetar este alfinete no seu braço.” Sabes como é pura a Clotilde. A pobrezita olhou-me assustada, pensou, sorriu com tristeza: - “Se não quer que eu mostre os braços por que não me disse há mais tempo, Rodolfo? Diga, é isso que o faz zangado?” - “É , é isso, Clotilde.” E rindo - como esse riso devia parecer idiota! - continuei: “É preciso pagar ao meu ciúme a sua dívida de sangue. Deixe espetar o alfinete.” “Está louco, Rodolfo?” “Que tem?” “Vai fazer-me doer” “Não dói.” “E o sangue?” “Beberei essa gota de sangue como a ambrosia do esquecimento.” E dei por mim, quase de joelhos, implorando, suplicando, inventando frases, com um gosto de sangue na boca e as fontes a bater, a bater… Clotilde por fim estava atordoada, vencida, não compreendendo bem se devia ou não resistir Ah! meu caro, as mulheres! Que estranho fundo de bondade, de submissão, de desejo, de dedicação inconsciente tem uma pobre menina! Ao cabo de um certo tempo, ela curvou a cabeça, murmurou num suspiro: “Bem. Rodolfo, faça… mas devagar, Rodolfo! Há de doer tanto!”. E os seus dois braços tremiam.
Tirei da botoeira da casaca um alfinete, e nervoso, nervoso como se fosse amar pela primeira vez, escolhi o lugar, passei a mão, senti a pele macia e enterrei-o. Foi como se fisgasse uma pétala de camélia, mas deu-me um gozo complexo de que participavam todos os meus sentidos. Ela teve um ah! de dor, levou o lenço ao sítio picado, e disse, magoadamente: “Mau!”
Ah! Justino, não dormi. Deitado, a delícia daquela carne que sofrera por meu desejo, a sensação do aço afundando devagar no braço da minha noiva, dava-me espasmos de horror! Que prazer tremendo! E apertando os varões da cama, mordendo a travesseira, eu tinha a certeza de que dentro de mim rebentara a moléstia incurável. Ao mesmo tempo em que forçava o pensamento a dizer: nunca mais farei essa infâmia! todos os meus nervos latejavam: voltas amanhã; tens que gozar de novo o supremo prazer! Era o delírio, era a moléstia, era o meu horror..
Houve um silêncio. O trem corria em plena treva, acordando os campos com o desesperado badalar da máquina. O sujeito gordo tirou a carteira e acendeu uma cigarreta.
Caso muito interessante, Rodolfo. Não há dúvida de que é uma degeneração sexual, mas o altruísmo de S. Francisco de Assis também é degeneração e o amor de Santa Tereza não foi outra coisa. Sabes que Rousseau tinha pouco mais ou menos esse mal? É mais um tipo a enriquecer a série enorme dos discípulos do marquês de Sade. Um homem de espírito já definiu o sadismo: a depravação intelectual do assassinato. É um Jack hipercivilizado, contenta-se com enterrar alfinetes nos braços. Não te assustes.
O outro resfolegava, com a cabeça entre as mãos.
Não rias, Justino. Estás a tecer paradoxos diante de uma criatura já do outro lado da vida normal. E lúgubre.
Então continuaste?
Sim, continuei, voltei, imediatamente. No dia seguinte, à noitinha, estava em casa de Clotilde, e com um desejo louco, desvairado. Nós conversávamos na sala de visitas. Os velhos ficavam por ali a montar guarda. Eu e a Clotilde íamos para o fundo, para o sofá. Logo ao entrar tive o instinto de que podia praticar a minha infâmia na penumbra da sala, enquanto o pai conversasse. Estava tão agitado que o velho exclamou: “Parece, Rodolfo, que vieste a correr para não perder a festa.”
Eu estava louco, apenas. Não poderás nunca imaginar o caos da minha alma naqueles momentos em que estive a seu lado no sofá, o maelstrom de angústias, de esforços, de desejos, a luta da razão e do mal, o mal que eu senti saltar-me à garganta, tomar-me a mão, ir agir, ir agir… Quando ao cabo de alguns minutos acariciei-lhe na sombra o braço, por cima da manga, numa carícia lenta que subia das mãos para os ombros, entre os dedos senti que já tinha o alfinete, o alfinete pavoroso. Então fechei os olhos, encolhi-me, encolhi-me, e finquei. Ela estremeceu, suspirou. Eu tive logo um relaxamento de nervos, uma doce acalmia. Passara a crise com a satisfação, mas sobre os meus olhos os olhos de Clotilde se fixaram enormes e eu vi que ela compreendia vagamente tudo, que ela descobria o seu infortúnio e a minha infâmia. Como era nobre, porém! Não disse uma palavra. Era a desgraça. Que se havia de fazer?…
Então depois, Justino, sabes? foi todo o dia. Não lhe via a carne mas sentia-a marcada, ferida. Cosi-lhe os braços! Por último perguntava: - “Fez sangue, ontem?” E ela pálida e triste, num suspiro de rola: “Fez”… Pobre Clotilde! A que ponto eu chegara, na necessidade de saber se doera bem, se ferira bem, se estragara bem! E no quarto, à noite, vinham-me grandes pavores súbitos ao pensar no casamento porque sabia que se a tivesse toda havia de picar-lhe a carne virginal nos braços, no dorso, nos seios… Justino, que tristeza!…
De novo a voz calou-se. O trem continuava aos solavancos na tempestade, e pareceu-me ouvir o rapaz soluçar. O outro porém estava interessado e indagou:
Mas então como te saíste?
Em um mês ela emagreceu, perdeu as cores. Os seus dois olhos negros ardiam aumentados pelas olheiras roxas. Já não tinha risos. Quando eu chegava, fechava-se no quarto, no desejo de espaçar a hora do tormento. Era a mãe que a ia buscar. “Minha filha, o Rodolfo chegou. Avia-te.” E ela de dentro: “Já vou, mãe”. Que dor eu tinha quando a via aparecer sem uma palavra! Sentava-se à janela, consertava as flores da jarra, hesitava, até que sem forças vinha tombar a meu lado, no sofá, como esses pobres pássaros que as serpentes fascinam. Afinal, há dois meses, uma criada viu-lhe os braços, deu o alarme. Clotilde foi interrogada, confessou tudo numa onda de soluços. Nessa mesma tarde recebi uma carta seca do velho desfazendo o compromisso e falando em crimes que estão com penas no código.
E fugiste?
Não fugi; rolei, perdi-me. Nada mais resta do antigo Rodolfo. Sou outro homem, tenho outra alma, outra voz, outras idéias. Assisto-me endoidecer Perder a Clotilde foi para mim o soçobramento total. Para esquecê-la percorri os lugares de má fama, aluguei por muito dinheiro a dor das mulheres infames, freqüentei alcouces. Até aí o meu perfil foi dentro em pouco o terror As mulheres apontavam-me a sorrir, mas um sorriso de medo, de horror.
A pedir, a rogar um instante de calma eu corria às vezes ruas inteiras da Suburra, numa enxurrada de apodos. Esses entes querem apanhar do amante, sofrem lanhos na fúria do amor, mas tremem de nojo assustado diante do ser que pausadamente e sem cólera lhes enterra alfinetes. Eu era ridículo e pavoroso. Dei então para agir livremente, ao acaso, sem dar satisfações, nas desconhecidas. Gozo agora nos tramways, nos music-halls, nos comboios dos caminhos de ferro, nas ruas. E muito mais simples. Aproximo-me, tomo posição, enterro sem dó o alfinete. Elas gritam, às vezes. Eu peço desculpa. Uma já me esbofeteou. Mas ninguém descobre se foi proposital. Gosto mais das magras, as que parecem doentes.
A voz do desvairado tomara-se metálica, outra.
De novo porém a envolveu um tremor assustado.
Quando te encontrei, Justino, vinha a acompanhar uma rapariga magrinha. Estou com a crise, estou… O teu pobre amigo está perdido, o teu pobre amigo vai ficar louco…
De repente, num entrechocar de todos os vagões o comboio parou. Estávamos numa estação suja, iluminada vagamente. Dois ou três empregados apareceram com lanternas rubras e verdes. Apitos trilaram. Nesse momento, uma menina loira com um guarda-chuva a pingar, apareceu, espiou o vagão, caminhou para outro, entrou. O rapaz pôs-se de pé logo.
Adeus.
Saltas aqui?
Salto.
Mas que vais fazer?
Não posso, deixa-me! Adeus!
Saiu, hesitou um instante. De novo os apitos trilaram. O trem teve um arranco. O rapaz apertou a cabeça com as duas mãos como se quisesse reter um irresistível impulso. Houve um silvo. A enorme massa resfolegando rangeu por sobre os trilhos. O rapaz olhou para os lados, consultou a botoeira, correu para o vagão onde desaparecera a menina loira. Logo o comboio partiu. O homem gordo recolheu a sua curiosidade, mais pálido, fazendo subir a vidraça da janela. Depois estendeu-se na banqueta. Eu estava incapaz de erguer-me, imaginando ouvir a cada instante um grito doloroso no outro vagão, no que estava a menina loira. Mas o comboio rasgara a treva com o outro silvo, cavalgando os trilhos vertiginosamente. Através das vidraças molhadas viam-se numa correria fantástica as luzes das casas ainda abertas, as sebes empapadas d’água sob a chuva torrencial. E à frente, no alto da locomotiva, como o rebate do desespero, o enorme sino reboava, acordando a noite, enchendo a treva de um clamor de desgraça e de delírio.
…Meu amor pelas orações foi aos poucos se equiparando ao meu amor pelos livros. Eu me sentava aos pés da minha mãe, vendo-a beber seu café e fumar seu cigarro, com um livro no colo. Ela ficava tão absorta que aquilo me intrigava. Ainda antes do jardim da infância, eu gostava de olhar os livros dela, sentir o papel e erguer a folha que cobria as estampas dos frontispícios. Eu queria saber o que havia ali, o que capturava sua atenção tão profundamente.
Quando minha mãe descobriu que eu havia escondido seu exemplar carmesim do livro dos mártires, de Foxe, embaixo do travesseiro, na esperança de absorver seu significado, ela me fez sentar e começou o trabalhoso processo de me ensinar a ler. Com grande esforço fomos juntas da Mamãe Ganso até o Doutor Seuss. Quando avancei e não precisava mais de instruções,permitiram que eu me juntasse a ela em nosso sofá ultraesfolado, ela lendo As sandálias do pescador e eu Os sapatos vermelhos.
Eu era absolutamente fascinada pelos livros. Queria ler todos, e as coisas sobre as quais eu lia criavam novos anseios. Talvez fosse à Africa oferecer meus serviços a Albert Schweitzer ou, com meu chapéu de guaxinim e chifre de pólvora, defender as pessoas, como Davy Crockett. Eu poderia escalaros Himalaias e viver numa caverna girando uma roda de preces, mantendo a Terra girando. Mas a necessidade de me expressar era meu desejo mais intenso, e meus irmãos foram os primeiros cúmplices conspiradores nas lavras da minha imaginação. Eles ouviam atentamente as minhas histórias, participavam de bom grado das minhas peças e combatiam bravamente em minhas guerras.
Com eles do meu lado, qualquer coisa parecia possível…
Patti Smith
Livro: só garotos
Só que homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade - voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe. Mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade.
FERNANDO DE BARROS E SILVA - Estação Povão
SÃO PAULO - É no mínimo questionável e parece fajuto o argumento do governo paulista de que desistiu da estação Higienópolis do metrô por “razões meramente técnicas”.
Primeiro, porque o corpo técnico do metrô que estudou o traçado da linha e decidiu, em 2010, fixar a futura estação na esquina da avenida Angélica com a rua Sergipe é o mesmíssimo do atual governo.
Segundo, e mais fundamental: antes da distância entre as estações, há pelo menos dois critérios que norteiam a escolha do lugar -a sua “conectividade” com outros meios de transporte (e a Angélica é um corredor de ônibus importante), além da demanda da estação.
Estudos do governo estimaram um acesso de 25 mil passageiros por dia na estação Angélica, contra, no máximo, 17 mil no entorno do estádio do Pacaembu. No projeto original estavam previstas as duas obras, embora houvesse dúvidas sobre a viabilidade da estação Pacaembu, nunca sobre a primeira.
Além disso, a distância entre a estação do Mackenzie, na rua da Consolação, e a da Angélica é quase a mesma que existe entre algumas estações da linha 1 do metrô.
Geraldo Alckmin precisa, pois, explicar melhor as “razões técnicas” de seu governo. Para que ninguém suspeite de que ele está sacrificando o interesse coletivo para premiar a demofobia dessa tal Associação Defenda Higienópolis, segundo a qual o metrô atrairia “ocorrências indesejáveis” e transformaria o bairro num “camelódromo”.
O governador, aliás, é reincidente. Em 2005, pressionado por moradores do Jardim Guedala, desistiu da estação Três Poderes, na linha 4, deixando um hiato de 2,4 km entre as estações Butantã e Morumbi.
Desta vez, a decisão teve enorme repercussão negativa. Um ato público foi convocado pelas redes sociais para amanhã no bairro. Quem sabe o governo volte atrás e anuncie a futura “Estação Povão”, no coração de Higienópolis. Seria uma maneira de aproximar os tucanos dessa “gente diferenciada”.
ELIANE CANTANHÊDE - Olho por olho
BRASÍLIA - Dois pesos, duas medidas. O governo comemora a aprovação do acordo pelo qual o Brasil vai pagar ao Paraguai o triplo do valor pela energia excedente de Itaipu, mas acaba de anunciar que, desde terça-feira, os veículos, autopeças e pneus que entram em solo brasileiro estão obrigados a mais uma burocracia: uma licença prévia para liberação de guias de importação. Antes, era automático.
Adivinha quem é o alvo dessa decisão? A Argentina, também vizinha e também membro do Mercosul, que já está com 70 caminhões parados na fronteira desde a entrada em vigor da medida. O governo nega que o alvo seja a Argentina, mas ninguém acredita, até porque esse tipo de picuinha e de provocação mútua já virou rotina.
Entra governo, sai governo, o Brasil trata o Paraguai com condescendência, inclusive fechando os olhos para contrabando e “outras cositas más”, e a Argentina, com valentia. E não se fala aqui de jogo de futebol. Fala-se de comércio.
A Argentina é o terceiro parceiro comercial do Brasil, só atrás de China e EUA, e Lula não apenas manteve boas relações com o casal Kirchner (ex-presidente Néstor, morto em 2010, e sua mulher e sucessora, Cristina) como se transformou num raro sucesso de público e de crítica entre os argentinos.
Apesar disso, a Argentina sempre arranja um jeito de criar empecilhos para os produtos brasileiros, especialmente da linha branca (geladeiras, fogões etc.), alegando a necessidade de industrialização. Dilma agora responde à altura.
Pena que, por causa da pneumonia, os médicos tenham desaconselhado a ida da presidente a Assunção neste final de semana, para o bicentenário da independência do país. Poderia ser um bom momento para sentir a diferença entre Paraguai e Argentina para o Brasil.
Exportadores de lá e de cá vivem atiçando seus governos, mas agora protejam-se! Canelada se paga com canelada. Vem mais por aí.
elianec@uol.com.br
RUY CASTRO - Bole-bole
RIO DE JANEIRO - Não apenas Joãozinho e Maricotinha estão sendo vítimas de bullying por aí. A língua portuguesa, também. E, entre as formas de bullying a que a língua tem sido submetida, inclui-se a onipresença, sem tradução, da palavra bullying -embora seu significado não seja tão aparente como se pensa e escape a 100% dos que a leem ou ouvem pela primeira vez e não têm obrigação de conhecer seu uso original em inglês.
O conceito (não a prática) pode ser relativamente novo em psicologia, mas os dicionários inglês-português sempre souberam o que era bullying. O velho e infalível “Vallandro”, por exemplo (minha edição é de 1966 e continua invicta), não faz mistério quanto ao significado de bully, substantivo e verbo:
“S [substantivo]. Fanfarrão; tirano; indivíduo arrogante e cruel; etc. V [verbo]. Intimidar, maltratar, oprimir; bravatear.” Daí bullying, com farta escolha de equivalentes em português: tirania, arrogância, crueldade, intimidação, maltrato, opressão, bravata.
No último Equilíbrio, a psicóloga Rosely Sayão alertou para a banalização do conceito -tudo agora é bullying - e para o risco de se estar criando uma geração incapaz de lidar com as diferenças (de sexo, idade, tamanho, comportamento). Como se, para que não haja bullying, as crianças devam ser como soldadinhos de chumbo, cada qual em seu canto -meninos para cá, meninas para lá, rapazes e moças idem-, e em que ninguém terá de aprender a se defender.
Dias antes, na coluna “Gente boa”, do “Globo”, o compositor e cantor Edu Krieger ofereceu, em troca da palavra bullying, uma bela aproximação em português: bulir -segundo o “Houaiss”, tocar (em algo ou alguém); causar incômodo ou apoquentar; produzir apreensão em; fazer caçoada; zombar. Com bulir, vê-se que, em certos casos, o que parece bullying pode ser só um caso de bole-bole.
BARBARA GANCIA - “Gente diferenciada”
Vale a pena ouvir o especialista novamente: “A integração é a única solução para as cidades”
ALÔ, GOVERNADOR ALCKMIN! Nosso time ganhou do Once Caldas, estamos com a mão na taça, dona Lu na santa paz, cunhadão em banho-maria, prefeito se afundando sozinho… Tudo azul para o seu lado, não é mesmo?
Pois então, o que o está impedindo de tocar as obras do metrô de que São Paulo tanto precisa e que o senhor conduz a passo de tartaruga?
Foram três gatos pingados fazer barulho em abaixo-assinado e isso serviu como desculpa para parar tudo mais uma vez, foi?
Em um mundo tão variado, tinha de haver 3.500 termocéfalos que não querem uma estação de metrô ao lado de casa. Vai ver que, por uma questão de gosto, eles também se posicionam contra a cura do câncer. O Taleban não proibiu a criançada de empinar pipa? Os wahabitas não detestam música? Não tem gente que come cocô? Pois então, há 3.500 seres em Higienópolis que não sabem o que estão perdendo ou que 93% dos londrinos andam de metrô e estão felizes da vida sem carro, estacionamento ou IPVA para pagar.
Tem também uma outra tropa de bucéfalos que quer declarar guerra a Higienópolis para acirrar o ódio que faz brasileiro cortar goela de brasileiro há cinco séculos.
E eu que pensei que uma das vantagens da liberdade de expressão fosse ver as pessoas certas se estrepando todas? Jair Bolsonaro virou símbolo de ódio e intolerância no país por dispor do verbo como bem entende. Agora foi a vez da mulher que não quer ser vizinha do metrô porque acha que a estação vai atrair “drogados, mendigos, camelôs e uma gente diferenciada”.
Ela não precisa ser combatida com ocupação territorial na forma de uma churrascada de protesto organizada por gente “do bem”, no próximo sábado, na frente do shopping Higienópolis. Isso só servirá para prejudicar os 55 mil moradores do bairro, 51.500 dos quais nada tiveram a ver com o abaixo-assinado. Ou para gratificar a molecada que pretende ir lá gritar: “Abaixo os ricos!” no intervalo entre uma comprinha e outra no shopping.
Prefiro usar a polêmica para responsabilizar o poder público pela lentidão da construção do metrô de São Paulo. Tirando os 3.500 altruístas que assinaram o pedido para a não construção da estação, não há muitos outros paulistanos que discordem: os atrasos nas obras ocorridos até hoje não podem mais ser tolerados.
E já que estamos aqui, vale a pena ler de novo um trecho da entrevista concedida ao dileto colega Mario Cesar Carvalho (por sinal, morador de Higienópolis e democrata) pelo arquiteto Richard Rogers, cocriador do Beaubourg e por muitos anos chefe da Comissão de Urbanismo de Londres, que esteve em São Paulo há pouco mais de mês:
“A integração é a única solução para as cidades. Em Londres, não temos favelas. Mas temos pessoas vivendo em habitações sociais, que são subsidiadas pelo governo. São prédios privados, nos quais o governo pode colocar pessoas pobres na porta ao lado de alguém muito rico. Uma área só para ricos contraria a ideia de cidade.
O que fazer quando ricos não querem pobres ao lado?
O sistema londrino obriga bairros ricos a terem habitações sociais. Esse tipo de sistema já é aplicado na Holanda, na Dinamarca e na Suécia. É preciso criar leis para ter essa integração. O problema de pobres e ricos no Brasil é igual ao que existia entre brancos e negros nos Estados Unidos. Cidades não podem ter guetos, seja para negros ou pobres”.
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Painel FC
EDUARDO OHATA e BERNARDO ITRI painelfc.folha@uol.com.br
Teto
A Secretaria da Fazenda de SP fixou teto de R$ 60 milhões para o valor a ser captado por meio da lei paulista de incentivo fiscal para o esporte, baseada na renúncia do ICMS. O anúncio da reabertura das inscrições acontece hoje. A lei fora aprovada no fim de 2009 e, por conta do tempo para a produção dos projetos, a captação teve início apenas em meados de 2010. No ano, foram captados R$ 18 milhões.
Autorizado. O COF deu carta branca ao presidente Arnaldo Tirone para resolver as questões pendentes da arena palmeirense. Conselheiros dizem que Tirone não terá problemas para ter aprovados os acordos que tem feito com a construtora WTorre.
Vitória de Pirro. Gente do grupo de Tirone e Mustafá Contursi encara a assinatura com a WTorre, nos moldes atuais, como derrota da gestão. Apontam que as alterações que foram feitas têm efeito cosmético, e que não foi mudado o que deveria.
Laboratório. A Federação Paulista de Futebol recebeu a visita do escocês Mario Vicker, que prepara relatório para a Fifa sobre os árbitros adicionais. Além de ter acompanhado partidas em São Paulo, receberá farta documentação com imagens.
Novela. O corintiano Antonio Roque Citadini foi uma das testemunhas que depuseram ontem no caso MSI. O dirigente disse que foi chamado pelo Ministério Público e que sua participação se limitou a lembrar que à época dizia que a parceria não seria boa coisa para o clube.
No mapa. Representantes da ATP se reúnem segunda com o secretário estadual de Esporte, Jorge Pagura, para fechar um challenger para o final do ano. Segunda e terça-feira visitam os parques da Juventude e Villa-Lobos.
Onda olímpica. Recém-eleito para a vice-presidência da Confederação Sul- -Americana de Tênis, Jorge Lacerda Rosa, da CBT, sugeriu e emplacou alteração do mandato de dois para quatro anos. A ideia é que os cartolas tenham condições de vivenciar todo o ciclo olímpico.
No tribunal. O Grêmio foi condenado a indenizar por pirataria a produtora do DVD “”A Batalha dos Aflitos”, sobre a épica disputa entre gaúchos e o Náutico pela ascensão à Série A. Foi o primeiro sucesso em DVD no gênero. O clube recorrerá.
Puxando a brasa. Marcelo Teixeira compara a atuação de Neymar em Manizales com a de Robinho contra o América de Cali. Acredita que por sua melhor formação na base do clube, por estar melhor orientado e amadurecendo rápido, será até mais completo que Robinho.
DIVIDIDA
“Ganhamos com educação e fair play, que são dois valores ensinados no Barcelona”
SANDRO ROSELL
presidente do Barcelona, ao alfinetar o técnico do Real Madrid, José Mourinho